A Samambaia Agreste

A SAMAMBAIA AGRESTE

Leda Saraiva Soares

Lá estava ela, metida entre duas paredes de alvenaria. Parecia feliz. Boa aparência... Não dava sinal de desolação.
Poderia ser vista do terraço, pelo canto esquerdo. Assim mesmo, se eu ficasse na ponta dos pés e espichasse o pescoço. As paredes das duas casas, tanto na parte da frente como na parte dos fundos, ligavam-se, dando a impressão de que não havia espaço entre as duas casas. Quem olhasse da rua, não poderia imaginar que houvesse um vão entre as duas paredes laterais. Esse privilégio era meu. Não sei por que, mas a samambaia, bem lá no fundo, sem se mostrar para ninguém, exercia um fascínio sobre mim.
O meu quarto se abria para o terraço. Vez por outra, quando estendia alguma roupa ali, uma força me atraía e mais uma vez eu ficava na ponta dos pés e me esgueirava para olhar aquele vegetal de um verde luminoso, suave, viçoso...
Que linda a samambaia agreste!...
Que lição de humildade me passava!...
Pensei por alguns segundos: “Se eu fosse aquela samambaia, será que teria a grandeza de ficar ali, cumprindo uma missão tão solitariamente?”
Depois de analisar a vida daquele vegetal tão singular, descobri que não era tão solitário quanto eu o imaginava ser. Em dias luminosos o sol, na sua caminhada inexorável, deixava cair um pouco de energia para aquecê-lo e iluminá-lo. O vento, embora não pudesse chegar diretamente até ele, transformava-se em aragem e chegava lá no fundo para refrescá-lo. Certamente, recebia sempre a visita de algum inseto. As nuvens o avistavam lá do alto, acenando-lhe apressadamente, empurradas pelo vento que as deslocava de um lado para outro. A chuva o regava, de tempos em tempos, o necessário para enchê-lo de viço. A lua, na quietude das noites, na companhia infinita das estrelas, propiciava um espetáculo particular à samambaia e esta, já não se sentia tão só.
Deixei o terraço e me recolhi, guardando comigo a imagem da samambaia agreste.
O tempo foi passando. Voltei a estender alguma roupa ali. E, como sempre, fui olhar a samambaia que já incluíra na minha agenda de amigos. Para minha surpresa, deparei-me com aquela fenda fechada. Já não podia fruir daquela imagem que já fazia parte dos meus dias.
Parei e fiquei pensando: “Que pena!... Pobre samambaia!... Tão simples!... Tão cheia de vida!... Tão escondida de todos, mas cumprindo uma missão no planeta...”
Certamente, havia umidade nas paredes e os proprietários tenham resolvido fechar aquele espaço.
O pedreiro que realizou o trabalho, talvez, nem tenha observado que havia ali uma samambaia que precisava de ar, de luminosidade, de alguém que lhe dirigisse um olhar, mesmo de vez em quando. Que, daquele vão que incomodava os proprietários das duas casas, dependia a vida de um ser.
Foi inesperado o que aconteceu e me sensibilizei.
Aquela samambaia vive, agora, nas entrelinhas e nos espaços desta crônica.

(Crônica publicada na Antologia de Escritores do Litoral Norte Gaúcho p.25 - coordenadores: COSTA, Delalves. FERNANDES,Jorge. BRAGA, Suely. - Florianópolis: Editora Secco 2009).
Site da Academia de Escritores do Litoral Norte: www.aeln.gov

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